Longevidade

Suplemento de Cálcio Faz Mal? Quando Vale Tomar

Dr. Ronaldo Gorga··5 min de leitura
Suplemento de Cálcio Faz Mal? Quando Vale Tomar

Suplemento de cálcio não costuma fazer mal ao coração em doses habituais: a metanálise mais recente de ensaios randomizados não achou aumento significativo de infarto ou AVC. Mas ele também protege pouco contra fraturas. Para a maioria das pessoas, o melhor caminho é completar a dieta até chegar à meta e usar comprimido só para cobrir o que falta.

No consultório, a pergunta chega de dois lados opostos. Tem a paciente de 58 anos que toma cálcio há uma década "por garantia" e leu que isso entope artéria. E tem o homem de 70 que nunca tomou nada e acha que o osso vai se cuidar sozinho. Os dois merecem uma resposta melhor do que "depende". Vamos por partes.

Suplemento de cálcio faz mal ao coração?

A suspeita nasceu de metanálises antigas que sugeriam mais infartos em quem tomava cálcio em comprimido. Isso gerou manchete e muita desistência de tratamento. Anos depois, uma metanálise de ensaios randomizados controlados por placebo reuniu 11 estudos: 7 comparações de cálcio isolado (8.634 participantes) e 6 de cálcio com vitamina D (46.804 participantes).

O resultado, publicado em 2023: com cálcio isolado, em dose média de 1 g por dia, não houve aumento significativo de infarto (RR 1,15, intervalo de confiança de 0,88 a 1,51), de morte por doença coronariana ou de AVC. Com cálcio mais vitamina D, também não. O intervalo de confiança de alguns desfechos é largo, então um pequeno efeito não pode ser descartado, mas o sinal de alarme não se confirmou.

Minha leitura: não é motivo para pânico, e também não é licença para tomar dose alta sem critério. A diretriz citada pela Harvard Nutrition Source conclui que o cálcio de comida ou suplemento não tem relação, benéfica ou prejudicial, com doença cardiovascular em adultos saudáveis.

O suplemento de cálcio protege contra fraturas?

Aqui a expectativa costuma ser maior do que o benefício. Uma revisão sistemática publicada no BMJ em 2015 analisou 26 ensaios randomizados. O cálcio em comprimido reduziu o risco de fratura total (RR 0,89, ou cerca de 11% menos) e de fratura vertebral (RR 0,86), mas não o de fratura de quadril nem de antebraço.

Os autores ainda notaram sinais de viés a favor dos suplementos nos dados publicados, ou seja, o efeito real pode ser menor. Em outras palavras, cálcio em comprimido sozinho é um coadjuvante modesto.

O que sustenta osso de verdade é o conjunto: carga mecânica, proteína suficiente, vitamina D adequada e, quando indicado, tratamento da osteoporose. Já escrevi sobre isso em prevenção da osteoporose com exercício de força, e a mensagem se repete: o músculo puxa o osso.

Quanto de cálcio eu preciso por dia?

Segundo a Harvard Nutrition Source, adultos de 19 a 50 anos precisam de cerca de 1.000 mg por dia. A partir dos 51 anos, a recomendação sobe para 1.200 mg, e o mesmo vale para homens acima de 71 anos. O limite superior é de 2.500 mg por dia, somando comida e suplemento, e acima dos 50 anos o conselho é não passar de 2.000 mg, sobretudo de suplemento.

Para uma ideia prática: um copo de leite ou um pote de iogurte trazem em torno de 250 a 300 mg, e há cálcio em sardinha com espinha, couve, brócolis, tofu e castanhas. Quem come laticínios duas a três vezes ao dia, mais verduras, costuma chegar perto da meta sem comprimido. Se você se pergunta se o leite é vilão, veja leite faz mal para a saúde?.

Comida ou comprimido: qual é melhor?

Quando possível, comida. Além de vir com proteína e outros nutrientes, o cálcio alimentar não tem a mesma associação com pedra nos rins. Segundo a Harvard Nutrition Source, o alto consumo de alimentos ricos em cálcio reduziu o risco de cálculo renal em mulheres, enquanto o cálcio em pílula foi associado a aumento de risco. Se esse é um tema para você, vale ler sobre cálculos renais e cristais no corpo.

Isso não significa que o suplemento seja inimigo. Ele faz sentido para quem:

  • não tolera ou evita laticínios e não atinge a meta com outros alimentos;
  • está na pós-menopausa ou tem osteopenia e osteoporose, com orientação médica;
  • passou por cirurgia bariátrica, que reduz a absorção de vários minerais;
  • usa medicamentos que prejudicam o osso, como corticoide por tempo prolongado.

Nesses casos, a regra prática é suplementar só a diferença entre o que você come e a meta, em doses divididas, em vez de somar 1.000 mg de comprimido a uma dieta que já tem 900 mg.

E a vitamina D e a K2 nessa história?

Sem vitamina D adequada, você absorve mal o cálcio, e o osso não agradece. É por isso que a maioria dos ensaios de fratura combina os dois. Antes de comprar qualquer coisa, o passo sensato é saber seu nível de 25(OH)D, tema de vitamina D: para que serve e níveis ideais. A vitamina K2 com D3 entra como assunto à parte, com evidência mais frágil.

Outro ponto que cuido no acompanhamento é a perda muscular, que anda junto com a perda óssea depois dos 40. A sarcopenia e a osteoporose são duas faces da mesma conversa.

Como decidir sem se perder?

Um roteiro simples que uso:

  1. Some, por alguns dias, quanto cálcio você realmente come. Muita gente subestima.
  2. Peça no check-up anual vitamina D e função renal, e converse sobre risco de osteoporose.
  3. Se faltar cálcio na dieta, ajuste primeiro a alimentação.
  4. Se ainda faltar, suplemente a diferença, em doses de até 500 mg por vez, e reavalie.
  5. Nunca ultrapasse os limites superiores por conta própria, principalmente se já teve pedra nos rins.

Cálcio é um nutriente que a gente quer em quantidade suficiente, nem mais, nem menos. O erro está nos dois extremos: o medo que leva ao abandono total e o excesso "por garantia".

Se você toma cálcio há anos e nunca checou se precisa, ou se está na menopausa e quer montar uma estratégia de proteção dos ossos, agende uma avaliação e vamos olhar seus exames, sua alimentação e seu risco individual.

Fontes

  1. Calcium Supplements and Risk of CVD: A Meta-Analysis of Randomized Trials (Curr Dev Nutr, 2023)
  2. Calcium intake and risk of fracture: systematic review (BMJ, 2015)
  3. Harvard T.H. Chan School of Public Health — The Nutrition Source: Calcium

Conteúdo educativo e informativo — não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico individual. Procure sempre a orientação do seu médico. Em caso de emergência, ligue 192 (SAMU).


Compartilhar:WhatsAppX / Twitter

Perguntas frequentes

Suplemento de cálcio faz mal ao coração?+

A metanálise mais recente de ensaios randomizados, com 11 estudos, não encontrou aumento significativo de infarto, AVC ou morte por doença coronariana com cálcio isolado (dose média de 1 g por dia) nem com cálcio mais vitamina D. Estudos mais antigos haviam sugerido risco, então o assunto não é totalmente encerrado, mas a evidência atual é tranquilizadora para doses habituais.

Quanto de cálcio preciso por dia?+

Segundo a Harvard Nutrition Source, adultos de 19 a 50 anos precisam de cerca de 1.000 mg por dia, e a partir dos 51 anos a recomendação sobe para 1.200 mg. O limite superior é de 2.500 mg por dia somando comida e suplemento, e acima dos 50 anos o ideal é não passar de 2.000 mg.

Cálcio em comprimido protege contra fraturas?+

Protege pouco. Uma revisão sistemática no BMJ reuniu 26 ensaios e encontrou redução de 11% nas fraturas totais (risco relativo 0,89) e nenhuma redução significativa nas fraturas de quadril. Os próprios autores apontaram viés a favor dos suplementos nos dados publicados.

Cálcio do suplemento causa pedra nos rins?+

Pode contribuir. Segundo a Harvard Nutrition Source, o cálcio vindo dos alimentos parece reduzir o risco de cálculo renal em mulheres, enquanto o cálcio em comprimido foi associado a aumento de risco. Quem já teve pedra nos rins deve discutir o suplemento antes de começar.

Preciso de vitamina D junto com o cálcio?+

A vitamina D ajuda a absorver o cálcio, e os ensaios de prevenção de fraturas costumam combinar os dois. O ponto central é saber o seu nível: tomar cálcio com vitamina D baixa rende menos do que corrigir a vitamina D primeiro.

Leia também