Eritritol Faz Mal? O Que os Estudos Mostram Sobre o Adoçante e o Coração

O eritritol não faz mal no sentido em que a maioria das pessoas pergunta — ele não engorda, não sobe a glicemia e é aprovado pelas agências regulatórias. A dúvida legítima é outra e é cardiovascular: dois estudos da Cleveland Clinic associaram níveis mais altos de eritritol no sangue a mais eventos cardíacos e mostraram que ingerir trinta gramas deixa as plaquetas mais reativas. É um sinal que merece atenção, não pânico.
Escrevo sobre isso porque no consultório o eritritol chegou como solução unânime. Quem faz low carb usa, quem tem diabetes usa, quem está emagrecendo usa. Quando um ingrediente vira consenso rápido demais, vale ler a letra miúda.
O que é o eritritol e por que ele ficou tão popular
O eritritol é um poliol — um "álcool de açúcar" — presente naturalmente em pequenas quantidades em frutas e em alimentos fermentados. O que se vende em pó é produzido por fermentação industrial, geralmente a partir de milho.
A popularidade tem razões boas. Ele tem cerca de 70% da doçura do açúcar, praticamente zero caloria aproveitável, não eleva glicose nem insulina, e — diferente do sorbitol e do maltitol — é absorvido no intestino delgado em vez de fermentar no cólon, o que reduz muito o desconforto abdominal. Por isso virou a base de quase todo produto "zero açúcar" de padaria low carb e de boa parte dos refrigerantes e sobremesas que se apresentam como opção limpa. Se você quer entender como esses ingredientes aparecem nos rótulos, já detalhei isso em os nomes do açúcar nos rótulos.
O que o estudo de 2023 realmente encontrou
Em fevereiro de 2023, a Nature Medicine publicou o trabalho de Marco Witkowski e colegas, do grupo de Stanley Hazen na Cleveland Clinic. O desenho tinha três partes.
Primeiro, uma análise sem hipótese prévia em 1.157 pacientes em avaliação de risco cardíaco: o eritritol apareceu espontaneamente entre os metabólitos mais associados a eventos cardiovasculares em três anos. Depois, a confirmação em duas coortes independentes — 2.149 pessoas nos Estados Unidos e 833 na Europa. Quem estava no quartil mais alto de eritritol circulante teve risco de infarto, AVC ou morte cerca de 1,8 vez maior na coorte americana e 2,2 vezes maior na europeia, comparado ao quartil mais baixo. Por fim, experimentos laboratoriais e em animais mostraram plaquetas mais ativadas e formação mais rápida de trombo.
Aqui está a ressalva honesta que quase nenhuma manchete deu: o corpo humano produz eritritol por conta própria, pela via das pentoses fosfato, e essa produção aumenta em quem tem estresse metabólico. Ou seja, o eritritol alto no sangue podia ser apenas um marcador de doença metabólica já instalada — não a causa dela. Essa crítica foi feita por vários pesquisadores na época, e era procedente.
O estudo de 2024 mudou o peso do argumento
Foi para responder exatamente a essa crítica que o mesmo grupo publicou, em 2024, um estudo de intervenção na revista Arteriosclerosis, Thrombosis, and Vascular Biology. Dez voluntários saudáveis ingeriram 30 gramas de eritritol e outros dez ingeriram 30 gramas de glicose.
Os números são difíceis de ignorar. O eritritol no plasma subiu mais de mil vezes em relação ao basal. E, em todos os participantes, com todos os estímulos e doses testados, a agregação plaquetária aumentou. Marcadores liberados pelas plaquetas — serotonina e CXCL4 — subiram junto. No grupo da glicose, nada disso aconteceu.
Trinta gramas não é uma quantidade exótica de laboratório. É o que cabe em uma lata de refrigerante zero adoçado com eritritol ou em uma fatia generosa de bolo low carb. Os autores foram diretos na conclusão: o achado justifica reavaliar o status de "geralmente reconhecido como seguro" do ingrediente.
Então eritritol faz mal? A leitura clínica
O que temos é um mecanismo plausível, um estudo de intervenção coerente com ele e associações populacionais na mesma direção. O que não temos é o mais importante: um ensaio clínico de longo prazo mostrando que consumir eritritol causa infarto. E é bom lembrar que nenhum adoçante não nutritivo jamais foi submetido a esse tipo de ensaio — a aprovação regulatória se baseou em toxicidade, não em desfecho cardiovascular.
Na prática, eu separo os pacientes em dois grupos.
Se você é metabolicamente saudável e usa eritritol de vez em quando, o risco absoluto que esses estudos sugerem é pequeno e o alarme não se justifica. Se você tem doença cardiovascular estabelecida, colocou stent, já teve um evento ou usa antiagregante, a conversa muda — o mecanismo descrito é exatamente aquele que o seu tratamento tenta suprimir. Nesse cenário, moderar faz sentido enquanto a ciência não fecha a questão. Se você não sabe em qual grupo está, o exame de ApoB e uma avaliação de risco decente respondem melhor do que qualquer regra de rótulo.
O erro maior que o adoçante
Existe uma armadilha aqui que me preocupa mais do que o eritritol em si: usar o adoçante como licença. O biscoito "zero açúcar" continua sendo um ultraprocessado, com farinha refinada, gordura e a mesma capacidade de te fazer comer sem fome. Trocar açúcar por eritritol em um produto ruim não cria um produto bom.
O que faz sentido:
- Reduza a doçura total, não só a fonte dela. O paladar recalibra em algumas semanas, e isso resolve o problema de forma que nenhuma substituição resolve.
- Prefira a comida à versão adoçada dela. Fruta de verdade em vez de sobremesa low carb, café puro em vez de café adoçado com qualquer coisa.
- Se for usar adoçante, varie e use pouco. Concentrar todo o consumo em um único composto é o cenário exato dos estudos. Já falei sobre esse raciocínio em adoçantes artificiais fazem mal ao intestino.
- Não volte ao açúcar por medo. O risco cardiometabólico do açúcar em excesso é o mais bem documentado dessa história toda, como discuto em glicemia de jejum.
Quem segue dieta cetogênica costuma ser o maior consumidor de eritritol justamente por precisar de doçura sem carboidrato — vale rever o volume, não abandonar o protocolo. E se o que te trouxe até aqui foi o medo do colesterol, tem muito mais coisa em jogo do que o adoçante: escrevi sobre isso em colesterol: mitos e verdades.
O que eu diria em uma frase
O eritritol saiu de "seguro e resolvido" para "sob revisão" — e essa mudança é legítima. Não é motivo para jogar o pote fora com medo, mas também não é mais um ingrediente sobre o qual se possa dizer, com a antiga tranquilidade, que não há nada para discutir. Se você tem risco cardiovascular e quer saber o que de fato importa no seu caso, agende uma avaliação.
Fontes
Conteúdo educativo e informativo — não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico individual. Procure sempre a orientação do seu médico. Em caso de emergência, ligue 192 (SAMU).
Perguntas frequentes
O eritritol faz mal à saúde?+
Ele é aprovado pelas agências regulatórias e não causa os efeitos intestinais do açúcar comum, mas dois estudos da Cleveland Clinic levantaram uma dúvida cardiovascular real: níveis mais altos de eritritol no sangue se associaram a mais eventos cardíacos, e a ingestão de trinta gramas aumentou a reatividade das plaquetas em voluntários saudáveis. É um sinal de alerta, não uma condenação definitiva.
Quanto eritritol é considerado muito?+
O estudo de intervenção usou trinta gramas em dose única — a quantidade que cabe em um refrigerante zero adoçado com eritritol ou em uma sobremesa low carb. Não existe um limite oficial de segurança cardiovascular estabelecido, justamente porque ensaios clínicos de longo prazo nunca foram feitos.
Eritritol é o mesmo que xilitol?+
Não. São dois polióis diferentes, embora o mesmo grupo de pesquisa tenha encontrado um padrão semelhante para o xilitol. O eritritol é quase todo absorvido e eliminado pelos rins; o xilitol tem mais efeito laxativo. Ambos estão sob revisão científica pelo mesmo motivo.
Devo parar de usar adoçante e voltar ao açúcar?+
Essa não é a conclusão. O açúcar em excesso tem risco cardiometabólico bem documentado e muito maior volume de evidência do que qualquer adoçante. O caminho mais defensável é reduzir a doçura total da dieta em vez de trocar um pó branco por outro.
Quem precisa ter mais cuidado com eritritol?+
Quem já tem doença cardiovascular estabelecida, colocou stent, teve infarto ou AVC, ou usa antiagregante plaquetário. Nesse grupo, o mecanismo descrito nos estudos — maior agregação de plaquetas — é justamente o que se tenta evitar. Vale conversar com seu cardiologista.
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