Emagrecimento & Metabolismo

IMC Ideal: O Que o Número Diz e o Que Ele Esconde

Dr. Ronaldo Gorga··4 min de leitura
IMC Ideal: O Que o Número Diz e o Que Ele Esconde

O IMC ideal, pela Organização Mundial da Saúde, fica entre 18,5 e 24,9 kg/m². Só que esse número foi criado para descrever populações, não pessoas. Ele não separa músculo de gordura, não diz onde a gordura está e não enxerga o seu metabolismo. Como triagem, funciona. Como diagnóstico individual, erra com frequência — para os dois lados.

Vejo isso toda semana. Chega o homem de 42 anos que treina há uma década, IMC 27, "sobrepeso" no papel e composição corporal melhor que a de 90% dos pacientes. E chega, na consulta seguinte, a mulher de 50 anos com IMC 23, magra pelo espelho, com triglicerídeos altos, glicemia subindo e quase nenhuma massa muscular.

De onde veio o IMC (e por que isso importa)

A fórmula peso dividido pela altura ao quadrado foi criada no século XIX por um matemático belga, Adolphe Quetelet, que estudava estatística de populações. Ele nunca propôs aquilo como ferramenta clínica. O índice foi adotado décadas depois porque é barato, rápido e reprodutível — três qualidades reais em saúde pública.

O problema começou quando o filtro epidemiológico virou carimbo individual. Um instrumento que funciona bem para responder "quantas pessoas nesta cidade estão em risco?" é péssimo para responder "eu estou bem?".

O que o IMC erra: os números

A evidência mais direta disso vem de uma análise de 40.420 adultos do inquérito nacional americano NHANES, publicada no International Journal of Obesity em 2016. Cruzando IMC com pressão, triglicerídeos, colesterol, glicose, resistência à insulina e proteína C reativa, ela encontrou:

  • mais de 30% das pessoas com IMC normal eram cardiometabolicamente não saudáveis;
  • quase metade das classificadas como sobrepeso e 29% das classificadas como obesas estavam metabolicamente saudáveis naquele momento.

Traduzindo em escala: cerca de 75 milhões de adultos americanos seriam classificados errado se o IMC fosse o único critério. Não é um erro de arredondamento — é a metodologia falhando.

Em janeiro de 2025, uma comissão internacional publicada na Lancet Diabetes & Endocrinology foi além e propôs mudar o próprio diagnóstico de obesidade. A recomendação: o IMC deve ser usado apenas como medida indireta de risco populacional, para estudos epidemiológicos ou triagem — não como medida individual de saúde. A comissão separou "obesidade pré-clínica" (excesso de gordura sem disfunção de órgão) de "obesidade clínica" (excesso de gordura já causando disfunção), e exigiu confirmação do excesso de gordura por medida de cintura, relação cintura-quadril, relação cintura-altura ou medida direta de gordura corporal.

As duas falhas que geram mais confusão

O músculo pesa. Massa magra é mais densa que gordura. Quem treina força consistentemente sobe de IMC ganhando saúde, não perdendo. É o motivo pelo qual atletas de força aparecem como "obesos" em planilhas de IMC.

O IMC ignora o endereço da gordura. Dois corpos com o mesmo IMC podem ter distribuições completamente diferentes — e é a distribuição que manda. A gordura visceral, aquela que envolve os órgãos, é metabolicamente ativa: libera ácidos graxos direto no fígado, produz citocinas inflamatórias e piora a resistência à insulina. A gordura subcutânea da coxa e do quadril não faz nada disso na mesma intensidade.

Existe ainda um recorte que o IMC apaga por completo: a obesidade sarcopênica — pouca massa muscular convivendo com excesso de gordura. É um perfil de risco alto, e o número no papel pode estar perfeitamente normal. Falei sobre esse mecanismo em detalhe no texto sobre sarcopenia depois dos 40.

O que medir no lugar (ou junto)

Circunferência da cintura. Medida na altura do umbigo, com a fita paralela ao chão, sem apertar, no fim de uma expiração normal. É a medida de consultório com melhor custo-benefício.

Relação cintura-altura. Divida a cintura pela altura, ambas na mesma unidade. Abaixo de 0,5 é a meta prática: sua cintura deve medir menos que metade da sua altura. Alguém com 1,70 m quer cintura abaixo de 85 cm. Essa medida corrige boa parte do que o IMC erra e você faz em casa com uma fita métrica.

Composição corporal. Bioimpedância de boa qualidade ou densitometria (DEXA) dizem o que o IMC nunca dirá: quanto é músculo e quanto é gordura. É a medida que mostra se você está emagrecendo bem ou perdendo massa magra junto — o risco central de todo déficit calórico mal conduzido.

Marcadores de sangue. Hemoglobina glicada, triglicerídeos, HDL, glicemia de jejum e pressão. São eles que definem se existe disfunção — o critério que a comissão da Lancet colocou no centro do diagnóstico.

Função. Força de preensão manual, capacidade de subir escada sem apoio, sentar e levantar do chão. Corpo funcional é um desfecho, não um detalhe estético.

Então o IMC serve para alguma coisa?

Serve. É gratuito, universal e razoável como primeiro filtro, especialmente nos extremos: IMC abaixo de 18,5 ou acima de 35 quase sempre indica algo que merece investigação. O erro nunca foi calcular o IMC — foi parar nele.

Se o seu número está te dizendo uma coisa e o espelho, a fita métrica ou o exame de sangue estão dizendo outra, confie na combinação, não no atalho. Agende uma avaliação e vamos medir o que de fato prevê risco no seu caso.

Fontes

  1. Rubino F. et al. — Definição e critérios diagnósticos de obesidade clínica: Comissão da Lancet Diabetes & Endocrinology (2025)
  2. Tomiyama A.J. et al. — Erro de classificação da saúde cardiometabólica ao usar categorias de IMC, NHANES 2005–2012 (International Journal of Obesity, 2016): 40.420 adultos
  3. Organização Mundial da Saúde — Obesidade e sobrepeso: definições e faixas de IMC

Conteúdo educativo e informativo — não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico individual. Procure sempre a orientação do seu médico. Em caso de emergência, ligue 192 (SAMU).


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Perguntas frequentes

Qual é o IMC ideal?+

A faixa considerada normal pela Organização Mundial da Saúde vai de 18,5 a 24,9 kg/m². Abaixo de 18,5 é baixo peso, de 25 a 29,9 é sobrepeso e a partir de 30 é obesidade. Mas essa faixa foi construída para descrever populações, não para diagnosticar uma pessoa específica — é por isso que ela erra tanto em casos individuais.

Como calcular o IMC?+

Divida o peso em quilos pela altura em metros elevada ao quadrado. Alguém com 80 kg e 1,75 m: 80 dividido por 1,75 vezes 1,75, ou seja, 80 dividido por 3,0625, resulta em 26,1 kg/m². Esse número sozinho não diz se os 80 quilos são de músculo ou de gordura visceral.

O IMC é confiável?+

Como filtro rápido em grandes populações, sim. Como diagnóstico individual, não. Ele não separa massa magra de gordura, não informa onde a gordura está e ignora idade, sexo e etnia. Uma comissão internacional publicada na Lancet Diabetes & Endocrinology em 2025 recomendou formalmente parar de usar o IMC isolado para diagnosticar obesidade em um indivíduo.

Dá para ter IMC normal e estar doente?+

Dá, e é mais comum do que se imagina. Uma análise de 40.420 adultos americanos mostrou que mais de 30% das pessoas com IMC dentro da faixa normal apresentavam pelo menos dois marcadores cardiometabólicos alterados. É o perfil do magro com gordura visceral, triglicerídeos altos e pouca massa muscular.

O que devo medir além do IMC?+

Circunferência da cintura, relação cintura-altura (o ideal é ficar abaixo de 0,5, ou seja, cintura menor que metade da altura), percentual de gordura e massa magra. Junto disso, exames simples: glicemia, hemoglobina glicada, triglicerídeos, HDL, pressão arterial e um marcador de inflamação.

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