Performance

Ginkgo Biloba Funciona para Memória? O Que os Grandes Estudos Mostram

Dr. Ronaldo Gorga··5 min de leitura
Ginkgo Biloba Funciona para Memória? O Que os Grandes Estudos Mostram

Nos melhores estudos, o ginkgo biloba não funciona para prevenir perda de memória nem demência. Dois grandes ensaios clínicos, com quase 5.900 idosos no total, não mostraram diferença em relação ao placebo. Se o seu objetivo é proteger o cérebro, existem estratégias com muito mais respaldo e menos custo.

"Doutor, tomo ginkgo há anos para a memória, ajuda?" É uma das perguntas mais frequentes dos pacientes acima dos 50. A planta é usada há séculos e vende muito, então a dúvida é justa. A resposta honesta é: a hipótese era promissora, mas os testes mais rigorosos não a confirmaram.

O que é o ginkgo biloba e por que ficou famoso?

O ginkgo é uma árvore milenar da China, e o extrato das folhas contém flavonoides e terpenoides com ação antioxidante e leve efeito sobre a circulação. A ideia era simples: se melhora o fluxo de sangue e protege neurônios, talvez proteja a memória. Estudos pequenos e curtos chegaram a sugerir ganhos cognitivos, o que alimentou o mercado.

O problema é que pequenos estudos curtos são ótimos para levantar hipóteses e ruins para prová-las. Para saber se um suplemento previne demência, é preciso acompanhar milhares de pessoas por anos. E isso foi feito.

O que o estudo GEM mostrou?

O GEM (Ginkgo Evaluation of Memory), publicado no JAMA em 2008, é o maior ensaio sobre o tema nos Estados Unidos. Foram 3.069 voluntários com 75 anos ou mais, com cognição normal (2.587) ou comprometimento cognitivo leve (482), que receberam 120 mg de extrato de ginkgo duas vezes ao dia ou placebo, com seguimento mediano de 6,1 anos.

O resultado: 523 pessoas desenvolveram demência (277 no grupo ginkgo e 246 no placebo). A taxa foi de 3,3 por 100 pessoas-ano com ginkgo contra 2,9 com placebo. O hazard ratio para demência de qualquer causa foi 1,12 (IC 95% 0,94–1,33), e para Alzheimer, 1,16, ambos sem significância estatística. Nem entre quem já tinha comprometimento leve houve vantagem. Os autores concluíram que o ginkgo não foi eficaz em reduzir a incidência de demência ou de Alzheimer.

E o estudo GuidAge, feito na França?

Para quem argumentava que o GEM usou idosos mais velhos, o GuidAge testou outro grupo: 2.854 adultos com 70 anos ou mais que se queixavam espontaneamente de memória, acompanhados por 5 anos com o extrato padronizado EGb 761, 120 mg duas vezes ao dia, contra placebo.

Em 5 anos, 61 participantes do grupo ginkgo e 73 do placebo tiveram diagnóstico de provável Alzheimer (hazard ratio 0,84; IC 95% 0,60–1,18; p=0,306). A diferença numérica não foi estatisticamente significativa, e os autores concluíram que o uso prolongado do extrato não reduziu o risco de progressão para Alzheimer. A segurança foi parecida entre os grupos, sem diferença relevante em mortes, AVC ou eventos hemorrágicos.

Então o ginkgo é inútil?

Para prevenir demência, a evidência não sustenta. Isso não significa que alguém jamais tenha percebido algum benefício: o efeito placebo na memória é grande, porque a expectativa melhora a atenção. Mas dinheiro e esperança precisam ir para onde a ciência aponta.

Vale também lembrar que suplemento "natural" não é sinônimo de seguro. O ginkgo pode interferir na coagulação, e quem usa anticoagulante, antiagregante ou vai passar por cirurgia deve avisar o médico. Nunca suspenda ou troque remédio por conta própria.

O que realmente protege a memória?

Os fatores com mais respaldo para manter o cérebro em forma:

  1. Dormir bem. O sono consolida memórias e participa da limpeza do cérebro. Veja o guia do sono.
  2. Exercício regular. Aeróbico e musculação melhoram saúde vascular e cognição.
  3. Controlar pressão, glicose e colesterol. O que faz mal ao coração faz mal ao cérebro.
  4. Alimentação de padrão mediterrâneo, com peixes, azeite, leguminosas e vegetais. Leia alimentos para estimular o cérebro.
  5. Atividade mental e vida social. Veja atividades mentais e declínio cognitivo.
  6. Evitar tabaco e excesso de álcool.

Quem quer um panorama completo encontra mais em como prevenir Alzheimer e demência e em como melhorar a memória e o foco.

Por que alguns estudos pequenos deram resultado positivo?

Ensaios menores e curtos, muitas vezes financiados pela indústria, mediram testes de memória em poucas semanas e às vezes encontraram melhora discreta. Só que, quando o desfecho é ter ou não demência, o que importa é seguir milhares de pessoas por anos, e aí o sinal desaparece. Também pesa o fato de que o extrato varia de marca para marca: sem padronização do princípio ativo, o que está na cápsula nem sempre é o que foi testado. Essa é uma regra que vale para quase todo suplemento de "cérebro": desconfie de promessas baseadas em estudos pequenos, curtos ou em animais.

No consultório, costumo sugerir que o paciente que quer investir em memória aplique o mesmo valor em algo comprovado: uma academia, aulas de dança ou de um idioma, um exame de rotina em dia. O retorno para o cérebro é maior, e o corpo inteiro agradece.

Vale a pena tomar mesmo assim?

Se você já usa e se sente bem, o risco costuma ser baixo, mas não espere proteção contra demência. Antes de começar, converse com o médico, principalmente se toma outros medicamentos. E se a queixa é de esquecimentos frequentes, não trate sozinho: pode haver falta de sono, depressão, deficiência de vitamina B12, alteração de tireoide ou outro motivo que tem solução.

Se a memória está te preocupando, agende uma avaliação para investigarmos as causas e montar um plano baseado em evidência.

Fontes

  1. DeKosky ST et al. Ginkgo biloba for prevention of dementia: a randomized controlled trial (GEM). JAMA, 2008 — PubMed 19017911
  2. Vellas B et al. Long-term use of standardised Ginkgo biloba extract for the prevention of Alzheimer's disease (GuidAge). Lancet Neurology, 2012 — PubMed 22959217

Conteúdo educativo e informativo — não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico individual. Procure sempre a orientação do seu médico. Em caso de emergência, ligue 192 (SAMU).


Compartilhar:WhatsAppX / Twitter

Perguntas frequentes

Ginkgo biloba funciona para memória?+

Nos melhores estudos, não. Dois grandes ensaios clínicos randomizados, o GEM (3.069 idosos) e o GuidAge (2.854 idosos com queixa de memória), não mostraram que o ginkgo reduza a incidência de demência ou de Alzheimer em comparação ao placebo.

Ginkgo previne o Alzheimer?+

Não há evidência de que previna. No GEM, a taxa de demência foi de 3,3 por 100 pessoas-ano com ginkgo e 2,9 com placebo, sem diferença estatística. No GuidAge, o resultado também não foi significativo.

Ginkgo biloba tem efeitos colaterais?+

Costuma ser bem tolerado, mas pode causar dor de cabeça, desconforto gástrico e tontura. Por poder afetar a coagulação, quem usa anticoagulantes ou antiagregantes ou vai fazer cirurgia deve falar com o médico antes.

Quanto tempo leva para o ginkgo fazer efeito?+

Os ensaios usaram 120 mg duas vezes ao dia por vários anos e não encontraram benefício na prevenção de demência. Não há prazo que garanta efeito, e quem não percebe melhora após alguns meses provavelmente está gastando à toa.

O que realmente melhora a memória?+

Sono suficiente, exercício regular (aeróbico e de força), controle de pressão e glicemia, alimentação de padrão mediterrâneo, vida social e atividades mentais desafiadoras têm muito mais respaldo do que qualquer cápsula.

Leia também