Energético Faz Mal? O Que Acontece com o Seu Coração

Energético faz mal quando o consumo é alto ou virou rotina. Em um ensaio randomizado publicado no Journal of the American Heart Association com 34 jovens saudáveis, cerca de 950 mL de energético em uma hora prolongaram o intervalo QT do coração e elevaram a pressão arterial por até quatro horas. Uma lata ocasional em adulto saudável raramente é problema. O padrão diário é.
No consultório, ninguém chega dizendo "doutor, tomo energético demais". A frase é sempre outra: "eu não durmo direito", "meu coração dispara do nada", "minha pressão subiu e eu não sei por quê". Aí eu pergunto o que a pessoa bebe durante o dia, e aparecem três latas — uma de manhã, uma antes do treino, uma no fim da tarde para aguentar a segunda jornada.
O que o energético faz com o coração nas primeiras horas
O estudo mais direto sobre isso foi conduzido por pesquisadores da University of the Pacific e do Cedars-Sinai, publicado na JAHA em 2019. Trinta e quatro voluntários saudáveis, com idade média de 22 anos, tomaram, em três dias separados com uma semana de intervalo, 32 onças (cerca de 950 mL) de dois energéticos diferentes ou de um placebo com sabor idêntico. Nem os participantes nem os pesquisadores sabiam o que estava sendo servido.
Os resultados nas quatro horas seguintes:
- O QT corrigido — a medida de quanto tempo o coração leva para "recarregar" eletricamente entre batimentos — subiu, no pico, 17,9 ms com um dos energéticos e 19,6 ms com o outro, contra 11,9 ms do placebo.
- A pressão arterial sistólica e diastólica, tanto periférica quanto central, ficou significativamente mais alta que a do placebo.
- Os efeitos persistiram por horas, não por minutos.
Por que o QT importa? Porque um QT alongado é o terreno em que arritmias graves acontecem. Em um jovem saudável, alguns milissegundos a mais não derrubam ninguém. O problema é quem já tem o QT naturalmente longo, ou usa medicação que também alonga o QT, ou tem uma doença elétrica do coração que nunca foi diagnosticada.
E repare no detalhe que os próprios autores destacaram: o efeito não foi explicado apenas pela cafeína. Havia algo na combinação da fórmula — cafeína, taurina, glucuronolactona, açúcar e volume — que o placebo com a mesma cafeína não reproduziu.
Quem corre risco de verdade
Aqui é importante calibrar o alarme. A grande maioria das pessoas que toma um energético não terá evento nenhum. O risco se concentra.
Um levantamento da Mayo Clinic publicado na revista Heart Rhythm em 2024 revisou 144 sobreviventes de parada cardíaca súbita de causa não explicada acompanhados na clínica de arritmias genéticas. Em 7 deles (5%), a parada aconteceu em proximidade temporal ao consumo de energético. Desses sete, dois tinham síndrome do QT longo, dois tinham taquicardia ventricular polimórfica catecolaminérgica e três receberam diagnóstico de fibrilação ventricular idiopática.
Os próprios autores foram honestos: o risco absoluto é pequeno. Mas a conclusão prática é clara — quem tem doença elétrica do coração conhecida deveria simplesmente não beber isso. O problema é que muita gente tem e não sabe. Se você tem histórico familiar de morte súbita antes dos 50 anos, desmaio durante esforço ou susto, ou palpitação recorrente, isso merece investigação antes de qualquer discussão sobre bebida.
Para os demais, os grupos em que eu peço cautela real: hipertensos mal controlados — vale entender o cenário em hipertensão: alimentação, exercício e controle da pressão —, gestantes, adolescentes e quem já usa outros estimulantes.
Energético é só café com açúcar?
Não exatamente, e essa é a confusão mais comum. Uma xícara de café tem cafeína e pouco mais. Um energético entrega:
- Cafeína em dose que varia enormemente entre marcas e volumes. A conta que importa é a do dia inteiro — expliquei como fazer em quanta cafeína por dia.
- Açúcar, e bastante, nas versões tradicionais. Uma lata grande pode carregar o equivalente a várias colheres de chá, sob nomes que nem sempre parecem açúcar — a lista está em os nomes do açúcar nos rótulos.
- Taurina e outros aminoácidos em quantidade muito maior que a dietética. A taurina isolada tem literatura interessante, que discuti em taurina: para que serve — mas isso não valida a lata.
- Volume alto de líquido, ingerido rápido, o que por si só altera a hemodinâmica.
É a soma que produz o efeito, não um ingrediente isolado.
O problema real que quase ninguém enxerga: o sono
Na minha experiência de consultório, o dano mais frequente do energético não é elétrico. É circular.
A pessoa dorme mal, acorda arrasada, toma energético para funcionar, o estimulante tem meia-vida longa e ainda está no sangue à noite, ela dorme pior — e no dia seguinte precisa de mais. Em poucas semanas, o consumo dobra e a queixa que chega ao consultório é "cansaço crônico", quando a causa está dentro da lata.
Se esse é o seu caso, o ponto de partida não é reduzir o energético na marra. É atacar o sono primeiro, com o roteiro de como dormir melhor, e entender de onde vem a exaustão em como ter mais energia: as causas do cansaço. Quando o sono melhora, a vontade de estimulante cai sozinha.
Vale também conferir a sua frequência cardíaca de repouso: ela sobe silenciosamente em quem vive sob estimulante, e é um dos marcadores mais baratos de que o corpo está em alerta o tempo todo.
A mistura com álcool
Esse é o ponto em que eu paro de relativizar. O energético não reduz o efeito do álcool sobre reflexo e julgamento — ele apenas apaga a percepção de estar bêbado. A consequência previsível é beber mais, por mais tempo, e em volume que a pessoa não beberia sozinha. Some a isso uma sobrecarga cardiovascular de cafeína em dose alta e você tem a pior combinação possível para um coração jovem em ambiente quente e com desidratação. A discussão mais ampla sobre álcool está em existe dose segura de álcool?.
E para o treino, funciona?
Funciona — mas por causa da cafeína, que é um dos poucos suplementos com evidência ergogênica realmente sólida. O resto da fórmula é marketing. Se o objetivo é desempenho, café forte ou cafeína isolada entregam o mesmo efeito sem o açúcar, sem o volume de líquido no estômago e com dose previsível. Uma lata antes do treino é imprevisível justamente porque você não sabe quanto está tomando.
O resumo prático
Uma lata ocasional em um adulto saudável não é a questão. A questão é o hábito: o volume alto, a frequência diária, a mistura com álcool e o consumo em quem tem coração com predisposição desconhecida. Se você toma energético para conseguir funcionar, o energético não é a solução — é o sintoma.
Se você quer entender de onde vem o seu cansaço e o que os seus exames dizem sobre isso, agende uma avaliação.
Fontes
- Shah SA et al. — Impact of High Volume Energy Drink Consumption on Electrocardiographic and Blood Pressure Parameters: A Randomized Trial (J Am Heart Assoc, 2019)
- Martinez KA et al. — Sudden cardiac arrest occurring in temporal proximity to consumption of energy drinks (Heart Rhythm, Mayo Clinic, 2024)
Conteúdo educativo e informativo — não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico individual. Procure sempre a orientação do seu médico. Em caso de emergência, ligue 192 (SAMU).
Perguntas frequentes
Energético faz mal ao coração?+
Em quantidade alta, sim, e o efeito é mensurável. Um ensaio randomizado, duplo-cego e controlado por placebo publicado no Journal of the American Heart Association em 2019, com 34 voluntários saudáveis de cerca de 22 anos, mostrou que a ingestão de aproximadamente 950 mL de energético em uma hora prolongou o intervalo QT corrigido e elevou a pressão arterial periférica e central de forma significativa em relação ao placebo, com efeito que durou horas.
Quantos energéticos posso tomar por dia?+
Não existe um número universal, porque a quantidade de cafeína varia muito entre marcas e tamanhos de lata. O raciocínio prático é somar toda a cafeína do dia, incluindo café, chá e pré-treino, e ficar bem abaixo do limite de referência para adultos saudáveis. Uma lata ocasional em um adulto sem doença cardíaca raramente é problema; o consumo diário e em volume alto é o que preocupa.
Energético com álcool é perigoso?+
É a combinação mais problemática. O energético mascara a percepção de embriaguez sem reduzir o efeito do álcool sobre reflexo e julgamento, o que leva a beber mais e por mais tempo. Some-se a isso a sobrecarga cardiovascular da cafeína em dose alta, e você tem um cenário em que a pessoa consome muito mais dos dois do que consumiria isoladamente.
Quem não deve tomar energético de jeito nenhum?+
Quem tem arritmia conhecida, síndrome do QT longo ou outra doença elétrica genética do coração, hipertensão não controlada, cardiopatia estabelecida, gestantes e adolescentes. Um levantamento da Mayo Clinic publicado na Heart Rhythm em 2024 encontrou associação temporal com energético em 7 de 144 sobreviventes de parada cardíaca de causa não explicada, quase todos com doença genética do coração.
Energético melhora o desempenho no treino?+
O que melhora o desempenho é basicamente a cafeína, que tem evidência sólida para força e resistência. Os demais ingredientes de marketing, como taurina, glucuronolactona e o complexo B, não têm evidência equivalente. Ou seja: você pode obter o mesmo benefício ergogênico com café ou cafeína isolada, sem o açúcar e sem o volume de líquido.
Energético sem açúcar é seguro?+
Retira as calorias e o pico glicêmico, mas não retira a cafeína, que é o principal responsável pelos efeitos cardiovasculares. A versão zero resolve um problema metabólico e mantém intacto o problema cardíaco em quem já tem risco.
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