• Ronaldo Gorga

Síndrome rara pode deixar você bêbado, mesmo sem beber


A ABS é difícil de diagnosticar, sendo muitas vezes descartada pela equipe médica

Em um momento anterior o homem no estudo de caso era saudável até receber terapia antibiótica para uma lesão traumática no polegar. Uma semana depois, ele começou a experimentar mudanças de personalidade, incluindo episódios de depressão, confusão mental e comportamento agressivo. Seu clínico geral avaliou esse comportamento diferente e o encaminhou a um psiquiatra, que prescreveu medicamentos.

Ele acabou sendo preso porque os policiais acreditaram que ele estava dirigindo embriagado; seu nível de álcool no sangue era de 200 mg/dL. Desse modo, uma pessoa que apresente esse nível parecerá bêbada e pode apresentar uma deficiência visual grave. Vômitos, incontinência e sintomas de intoxicação por álcool também podem ocorrer em níveis de álcool no sangue começando em 200mg/dL.

Tanto a equipe médica quanto a polícia se recusaram a acreditar que o homem não havia consumido álcool, essa é uma situação comum nos casos de ABS. Após consultar vários médicos, a levedura de cerveja (Saccharomyces cerevisiae) e outra levedura (Saccharomyces boulardii) foram localizadas nas fezes do homem, e um exame de ABS foi realizado monitorando seu nível de álcool no sangue após uma refeição rica em carboidratos.

Foram prescritos um tratamento com medicamentos antifúngicos e a uma dieta sem carboidratos, o que funcionou para amenizar os sintomas por algumas semanas. As crises intermitentes recomeçaram, incluindo uma tão grave que levou o homem ao hospital devido a uma queda que causou sangramento intracraniano. Mesmo assim, de acordo com o estudo de caso, "a equipe médica se recusou a acreditar que ele não bebia álcool, apesar de suas negações constantes".

Após a leitura de um grupo de apoio online, o homem contatou os pesquisadores do estudo de caso do BMJ, que o colocaram em uma terapia antifúngica diferente e, após sua conclusão, ele começou a tomar um probiótico que ajudou a restaurar sua flora intestinal. De acordo com o BMJ:

"Ele começou a tomar um probiótico (Lactobacillus acidophilus de cepa única com 3 bilhões de unidades formadoras de colônias por cápsula) para impedir a proliferação dos fungos e ajudar a normalizar sua flora intestinal de forma competitiva. Os carboidratos foram introduzidos em sua dieta pouco a pouco, e a repetição do exame com carboidratos deu negativo.

Após 6 semanas, este probiótico foi alterado para um probiótico multi-cepa, contendo 12 organismos bacterianos diferentes sem qualquer fungo. Ele continuou esse tratamento desde então. Cerca de um ano e meio depois, ele permanece assintomático e retomou seu estilo de vida anterior, incluindo uma dieta normal enquanto verifica seus níveis de álcool no hálito de modo esporádico."

A terapia antibiótica pode ter desencadeado a ABS

Neste estudo de caso, os pesquisadores acreditam que o fator responsável foi a terapia antibiótica do homem, que alterou seu microbioma permitindo o desenvolvimento do fungo. Com a afirmação de que a ABS talvez seja uma condição subdiagnosticada, os pesquisadores observaram: "Acreditamos que os sintomas de nossos pacientes foram provocados pela exposição a antibióticos, o que resultou em uma mudança em seu microbioma gastrointestinal permitindo o crescimento excessivo de fungos."

Esta pode ser a primeira vez que antibióticos são relacionados à doença, embora outra pesquisa que comparou pacientes com ABS a um grupo de controles saudáveis ​​tenha apurado que aqueles apresentando ABS relataram o uso de antibióticos por um período mais longo. De acordo com uma revisão, a causa pode ser o uso de antibióticos, com uma dieta rica em alimentos processados:

"A condição subjacente que permite que os micróbios de fermentação se super colonizem é uma perturbação do microbioma intestinal. Esses distúrbios intestinais são causados ​​por uma dieta rica em carboidratos e alimentos industrializados e pelo uso excessivo de antibióticos e não antibióticos em alimentos e medicamentos."

O uso de probióticos no tratamento da ABS também é uma área que merece um estudo mais detalhado, sendo possível que o transplante fecal seja um tratamento de sucesso. No estudo apresentado, os pesquisadores começaram com um suplemento probiótico de cepa única para impedir o crescimento acelerado de fungos e, em seguida, optaram para um probiótico multi-cepa após seis semanas, de modo a apoiar um microbioma diverso.

Como essa condição pode ocorrer com mais frequência do que o imaginado, os pesquisadores sugeriram que qualquer pessoa que tenha níveis elevados de álcool no sangue ou um bafômetro positivo, mas negue a ingestão de álcool, deve ser investigada para ABS. Sintomas como mudanças de humor, delírios e confusão mental podem ocorrer no início da ABS, mesmo que os sintomas de embriaguez ainda não tenham se desenvolvido.

Em 2015, uma mulher de Nova York que foi acusada de dirigir sob efeito de álcool após um bafômetro mostrar um nível de álcool no sangue quatro vezes maior do que o limite legal, teve o caso arquivado depois que um tribunal ouviu evidências de que ela sofre de ABS.

A ABS é responsável pelo aumento dos casos de DHGNA?

Em outro caso de ABS, um homem de 27 anos na China com doença hepática gordurosa não alcoólica (DHGNA) apresentou níveis de álcool no sangue muito elevados, com cerca de 400 mg/L após consumir uma dieta rica em carboidratos (sem álcool). Nesse caso, não era o fungo que estava causando a doença, mas a bactéria conhecida como Klebsiella pneumoniae.

A descoberta veio depois que os pesquisadores compararam amostras das fezes do homem com as de pessoas com DHGNA, bem como com um grupo de controle saudável. O homem tinha níveis mais altos de K. pneumoniae em suas fezes do que os outros grupos; no auge dos sintomas de ABS, quase 19% das bactérias em suas fezes eram K. pneumoniae, que é 900 vezes maior do que o normal.

Além disso, as cepas de K. pneumoniae que poderiam gerar grandes quantidades de álcool foram isoladas do homem e foram maiores naqueles com DHGNA em comparação com os controles saudáveis. Em pacientes com DHGNA, 60% tinham cepas de K. pneumoniae com alto teor de álcool, em comparação com apenas 6% do grupo de controle. Quando os ratos foram alimentados com bactérias produtoras de alto teor de álcool, eles apresentaram sinais de danos no fígado.

"Esses resultados sugerem que, pelo menos em alguns casos de DHGNA, uma alteração no microbioma intestinal conduz a condição devido ao excesso de produção de álcool endógeno", concluíram os pesquisadores.

A ABS é mais comum em pessoas com DHGNA

Pessoas com ABS tendem a sofrer de com outros problemas de saúde, incluindo diabetes, obstrução intestinal crônica ou disfunção hepática, como DHGNA e esteato hepatite não alcoólica (EHNA).

A DHGNA é a doença hepática crônica mais comum nos países desenvolvidos, caracterizada por um acúmulo excessivo de gordura no fígado que não está relacionado ao consumo de álcool. A DHGNA pode evoluir para EHNA, uma forma mais grave da doença, que envolve inflamação do fígado e danos às células hepáticas, além do acúmulo de gordura.

Pessoas com EHNA podem desenvolver fibrose, ou cicatrizes, do fígado, bem como cirrose hepática, que por sua vez está ligada a um risco aumentado de câncer de fígado (as taxas desse tipo de câncer têm aumentado nas últimas duas décadas).

Em geral, a DHGNA não apresenta sintomas, embora possa causar fadiga, icterícia, inchaço nas pernas e abdômen, confusão mental entre outros. Nos estágios iniciais, a DHGNA pode ser revertida com cuidados com dieta e exercícios, além disso, a ingestão de colina também pode desempenhar um papel importante.

Estratégias dietéticas são importantes

Na DHGNA, o fígado gorduroso ocorre na ausência de consumo significativo de álcool, sendo, em vez disso, conduzido pelo excesso de açúcar. Em casos de DHGNA, é necessário eliminar a frutose processada e outros açúcares adicionados da dieta, o que também é recomendado para aqueles com ABS.

A frutose afeta o fígado de maneira muito semelhante ao álcool. Ao contrário da glicose, que pode ser usada por quase todas as células do seu corpo, a frutose só pode ser metabolizada pelo fígado, por ser o único órgão capaz de transportá-la.

Como toda a frutose é transportada para o fígado, se você consome quantidades elevadas, ela acaba o sobrecarregando e danificando da mesma forma que o álcool e outras toxinas. A forma como o fígado metaboliza a frutose também é muito semelhante à do álcool, pois ambos servem como substratos para a conversão de carboidratos em gordura, o que promove resistência à insulina, dislipidemia (níveis anormais de gordura na corrente sanguínea) e fígado gorduroso.

A frutose também sofre a reação de Maillard com proteínas, o que leva a formação de radicais livres superóxidos, podendo resultar na inflamação do fígado semelhante ao acetaldeído, um metabólito intermediário do etanol.

Reduzir os carboidratos para 50 gramas para cada 1.000 calorias e aumentar a ingestão de gorduras saudáveis ​​é uma maneira poderosa de apoiar a saúde do fígado e é muito provável que possa beneficiar também contra a ABS, ainda mais quando combinado com probióticos. Como foi observado em uma revisão:

“Um tratamento essencial para a síndrome da autocervejaria é a modificação da dieta que requer alto teor de proteína e baixo teor de carboidratos até que os sintomas diminuam. O açúcar é fermentado em álcool, e uma dieta que elimina os açúcares simples e complexos diminuirá o álcool fermentado do trato gastrointestinal...

Suplementos probióticos multi-cepas ajudam a equilibrar as bactérias no trato gastrointestinal e têm sido usados ​​no tratamento da síndrome da autocervejaria, mas ainda precisam ser estudados como tratamento para essa condição. O risco de recidiva da síndrome da autocervejaria é reduzido evitando a ingestão de carboidratos."

Embora ainda não esteja claro a razão pela qual algumas pessoas desenvolvem a ABS, ela está associada a distúrbios metabólicos como diabetes e obesidade, e as pessoas afetadas "costumam relatar uma dieta rica em açúcar e carboidratos". Como foi mencionado anteriormente, o uso de antibióticos também pode ser um fator desencadeante, acrescentando um motivo pelo qual eles devem ser usados com critério.

Em outro estudo de caso, um homem de 45 anos com obesidade e diabetes desenvolveu sintomas de ABS, incluindo vômitos, disartria, alucinações e perda de consciência após as refeições depois de um tratamento com dois ciclos de antibióticos para para fazer uma intervenção cirúrgica de desvio de septo nasal e um procedimento odontológico. Ele foi tratado com um agente antifúngico, mas também "respondeu de maneira dramática" com uma dieta sem carboidratos.

Se você ou um familiar podem estar lutando contra a ABS, receber um diagnóstico correto é crucial para a recuperação, muitas vezes ela é confundida com consumo de álcool, levando a problemas sociais e jurídicos que podem afetar empregos, relacionamentos e muito mais. Além disso, mesmo depois que os sintomas de ABS forem resolvidos, a exposição de longo prazo ao etanol pode levar ao vício e ânsias por álcool, levando à bebida, razão pela qual receber ajuda holística é crucial.