Emagrecimento & Metabolismo

SIBO: Sintomas, Diagnóstico e o Que Realmente Funciona

Dr. Ronaldo Gorga··5 min de leitura
SIBO: Sintomas, Diagnóstico e o Que Realmente Funciona

SIBO é o supercrescimento bacteriano do intestino delgado: bactérias que deveriam estar no intestino grosso se multiplicam num trecho onde quase não deveriam existir e fermentam a comida antes da absorção. Os sintomas principais são distensão que piora ao longo do dia, gases, dor abdominal e alteração do hábito intestinal. O diagnóstico é feito por teste respiratório, e o rótulo é usado hoje muito além do que os dados sustentam.

Essa última frase é o motivo deste artigo. Nos últimos anos, SIBO virou a resposta pronta para qualquer barriga inchada na internet — e eu recebo no consultório gente que já fez três tratamentos por conta própria para um diagnóstico que ninguém confirmou.

Por que o intestino delgado deveria ser quase vazio

Seu intestino grosso é um ecossistema denso: trilhões de bactérias, e isso é bom — é ali que a fibra vira ácidos graxos de cadeia curta. Escrevi sobre esse funcionamento em saúde intestinal e microbiota.

O intestino delgado é o oposto. É a área de absorção, e o corpo mantém a população bacteriana baixa ali com três mecanismos: acidez do estômago, bile e enzimas pancreáticas, e — o mais importante — o complexo motor migratório, uma onda de contração que varre o intestino entre as refeições, como uma faxina que só acontece quando a cozinha está vazia.

Quando essa faxina falha, sobra comida no lugar errado. E onde há substrato, bactéria cresce.

Os sintomas reais

  • Distensão abdominal progressiva. O sinal mais característico. A pessoa acorda com o abdome normal e termina o dia parecendo grávida de meses. Piora após refeições, especialmente com carboidratos fermentáveis e fibras.
  • Gases em excesso, com odor variável, e eructação.
  • Dor ou cólica, geralmente difusa e em torno do umbigo.
  • Diarreia ou constipação — e sim, os dois padrões existem, conforme o gás predominante produzido pelas bactérias.
  • Sensação de estufamento desproporcional ao volume ingerido.

Nos casos mais avançados, entra a má absorção: perda de peso não intencional, esteatorreia, deficiência de vitamina B12, ferro e vitaminas lipossolúveis. Se você tem ferritina baixa ou B12 baixa sem explicação dietética, o intestino delgado entra no diferencial.

O que os números mostram — e o que eles não mostram

Aqui está o dado que mais uso para calibrar expectativa. Uma metanálise publicada em 2020 no Journal of Gastroenterology and Hepatology, reunindo 47 estudos, encontrou teste positivo para SIBO em 36,7% dos pacientes com síndrome do intestino irritável. Comparados a controles saudáveis, esses pacientes tinham chance cerca de 2,6 vezes maior de teste positivo pelo método com glicose.

Leia essa frase com atenção, porque ela corta dos dois lados.

De um lado, é muita gente: cerca de um terço dos pacientes com intestino irritável tem supercrescimento associado, e ignorar isso deixa muita gente sem tratamento. De outro, quase dois terços não têm — e para essas pessoas, meses de dieta restritiva e tratamentos repetidos por um SIBO presumido são sofrimento sem retorno.

A mesma metanálise mostra outra coisa importante: os resultados variaram muito conforme o teste usado. Isso não é ruído estatístico, é um recado. Os métodos disponíveis têm limitações reais, e nenhum resultado isolado fecha o caso.

Como o diagnóstico é feito de verdade

A diretriz do Colégio Americano de Gastroenterologia, publicada em 2020 no American Journal of Gastroenterology, sugere o teste respiratório — com glicose ou lactulose — como método de escolha na prática, especialmente em pacientes com intestino irritável. Você ingere o substrato e mede-se o hidrogênio no ar expirado ao longo de algumas horas: se bactérias fermentam aquilo no delgado, o gás sobe cedo.

O padrão-ouro conceitual seria a cultura do aspirado do intestino delgado, obtida por endoscopia. Na prática, é invasiva, cara e pouco reprodutível — e por isso raramente indicada fora de pesquisa.

O ponto clínico que mais importa: o teste não substitui o raciocínio. Antes de rotular alguém, é preciso descartar as causas muito mais comuns do mesmo sintoma — intolerâncias, constipação, aerofagia e as demais causas de barriga inchada, sensibilidade ao glúten e doença celíaca e o aumento abrupto de fibras que virou moda, como comento em quanta fibra por dia.

Tratamento: o que funciona e o que falta

O tratamento tem três frentes, e a terceira é a mais negligenciada.

Reduzir o supercrescimento. A diretriz do ACG recomenda antibioticoterapia em pacientes sintomáticos com SIBO confirmado. Existe antibiótico com boa evidência para essa indicação específica, com ação predominantemente local no intestino — mas ele é medicamento de prescrição, e a escolha, o esquema e a duração são decisão médica individual. Não é assunto para autotratamento nem para protocolo de internet.

Ajustar a alimentação temporariamente. Reduzir carboidratos fermentáveis costuma aliviar sintomas enquanto o tratamento age. A palavra-chave é temporariamente: dieta restritiva prolongada empobrece a microbiota do intestino grosso e cria um segundo problema. Fibras solúveis suaves, como as do psyllium, costumam ser mais bem toleradas na retomada.

Corrigir a causa de base — e é aqui que se ganha o jogo. Motilidade lentificada, uso crônico de inibidores de bomba de prótons sem indicação atual, cirurgias abdominais prévias, hipotireoidismo, diabetes de longa data com neuropatia, constipação crônica. Tratar o supercrescimento sem corrigir o motivo é enxugar gelo — e explica a maior parte das recidivas.

Uma medida simples que ajuda muito e quase ninguém comenta: espaçar as refeições. O complexo motor migratório só funciona em jejum. Beliscar o dia inteiro impede a faxina de acontecer.

O veredito

SIBO existe, é subdiagnosticado em quem tem intestino irritável de longa data, e tem tratamento com respaldo em diretriz. Mas não é sinônimo de barriga inchada, e o maior risco hoje não é deixar de tratar — é tratar quem não tem, com dieta restritiva e antibiótico repetido.

Se você convive com distensão e desconforto abdominal há meses, o caminho é investigar em ordem: as causas comuns primeiro, o teste respiratório quando fizer sentido, e a causa de base sempre. Quer entender também como isso conversa com humor e ansiedade? Falei disso em eixo intestino-cérebro.

Para investigar o seu caso com método em vez de tentativa e erro, agende uma avaliação.

Fontes

  1. Pimentel M. et al. — Diretriz clínica do Colégio Americano de Gastroenterologia: supercrescimento bacteriano do intestino delgado (American Journal of Gastroenterology, 2020)
  2. Ghoshal U.C. et al. — Metanálise sobre supercrescimento bacteriano do intestino delgado em subtipos de síndrome do intestino irritável (Journal of Gastroenterology and Hepatology, 2020)

Conteúdo educativo e informativo — não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico individual. Procure sempre a orientação do seu médico. Em caso de emergência, ligue 192 (SAMU).


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Perguntas frequentes

O que é SIBO?+

SIBO é a sigla em inglês para supercrescimento bacteriano do intestino delgado. O intestino delgado normalmente tem poucas bactérias, porque é ali que os nutrientes são absorvidos. Quando bactérias que deveriam viver no intestino grosso se multiplicam nesse trecho, elas fermentam a comida antes da hora e produzem gás, distensão e alteração do hábito intestinal.

Quais são os sintomas de SIBO?+

Distensão abdominal que piora ao longo do dia e depois das refeições, gases em excesso, dor ou desconforto, diarreia ou constipação, e sensação de estufamento desproporcional ao que foi comido. Em casos mais avançados pode haver má absorção, com perda de peso e deficiências de vitamina B12, ferro e vitaminas lipossolúveis.

Como é feito o diagnóstico de SIBO?+

A diretriz do Colégio Americano de Gastroenterologia de 2020 sugere o teste respiratório com glicose ou lactulose como método de escolha na prática clínica, medindo hidrogênio expirado. O padrão-ouro teórico é a cultura do aspirado do intestino delgado, mas é invasivo e pouco usado. Nenhum dos dois é perfeito, e por isso o resultado precisa ser lido junto com o quadro clínico.

SIBO tem cura ou sempre volta?+

Trata e melhora na maioria dos casos, mas a recidiva é comum quando a causa de base não é corrigida. Alterações de motilidade intestinal, cirurgias prévias, uso prolongado de inibidores de bomba de prótons, doenças que lentificam o trânsito e alterações anatômicas são os motivos mais frequentes de retorno. Tratar só o supercrescimento e ignorar o motivo é receita para repetir.

Toda barriga inchada é SIBO?+

Não, e essa é a confusão mais comum hoje. Intolerância à lactose, sensibilidade ao glúten, síndrome do intestino irritável, constipação, aumento rápido de fibras, adoçantes e simples aerofagia causam exatamente o mesmo sintoma. SIBO é uma das causas possíveis, não a explicação padrão para todo desconforto abdominal.

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