Brain Rot: Como o Excesso de Tecnologia Está "Corroendo" Nosso Cérebro e o que a Ciência Diz Sobre Isso
- Ronaldo Gorga
- 9 de mai. de 2025
- 5 min de leitura
Atualizado: 5 de jan.
CONTEXTO GERAL
Em 2024, o termo "Brain Rot" foi eleito a Palavra do Ano pelo Oxford Dictionary, refletindo uma crescente preocupação social e científica com os efeitos do uso excessivo de tecnologia sobre as funções mentais. Em meio à era dos vídeos curtos, notificações constantes e estímulos digitais ininterruptos, cresce a sensação de esgotamento mental, dificuldade de foco e perda de produtividade cognitiva.
Mas o que exatamente está acontecendo com nosso cérebro? Neste artigo, abordaremos o conceito de Brain Rot, seus impactos neurobiológicos, como ele se manifesta no cotidiano e o que a ciência atual revela sobre os mecanismos envolvidos. Além disso, apresentaremos estratégias práticas, baseadas em evidências, para proteger a saúde cerebral diante desse cenário.

DESENVOLVIMENTO CEREBRAL
O Que é Brain Rot?

Brain Rot (traduzido como "apodrecimento cerebral") não é um diagnóstico clínico, mas sim um termo cultural que resume um fenômeno cada vez mais comum: o declínio progressivo da função cognitiva associado ao uso prolongado e passivo de tecnologias digitais.
Entre os sintomas relatados estão:
Dificuldade de manter a atenção em uma tarefa por longos períodos;
Sensação de "mente entorpecida";
Perda da criatividade e pensamento crítico;
Falhas de memória de curto prazo.
Estes sintomas têm relação direta com o estilo de vida moderno, marcado por interações constantes com conteúdos fragmentados, rápidos e altamente recompensadores — como aqueles encontrados no TikTok, Reels e plataformas de entretenimento em loop.
A Ciência Por Trás do Brain Rot
Neuroplasticidade e Reconfiguração Neural: O cérebro é plástico, ou seja, ele muda constantemente em resposta às experiências. A exposição frequente a estímulos digitais rápidos molda o sistema nervoso para favorecer respostas rápidas, mas não sustentadas, prejudicando a atenção sustentada, o raciocínio e a memória de trabalho. Segundo Small et al. (2020), o uso intenso de dispositivos digitais altera circuitos de atenção e recompensa no cérebro, especialmente em adolescentes, reduzindo o engajamento em tarefas que exigem esforço mental prolongado [Small et al., 2020].
Hiperestimulação Dopaminérgica e Mecanismo de Recompensa: Aplicativos e redes sociais ativam o sistema mesolímbico de recompensa, gerando picos de dopamina que reforçam o comportamento de checagem constante. Isso cria uma espécie de "loop dopaminérgico", semelhante ao observado em comportamentos aditivos. Montag et al. (2019) alertam que esse padrão pode alterar o limiar de prazer, levando a uma menor tolerância ao tédio e maior impulsividade [Montag et al., 2019].
Córtex Pré-Frontal: Queda na Tomada de Decisões e Autocontrole: O córtex pré-frontal dorsolateral, responsável por habilidades executivas, é comprometido quando o cérebro é exposto de forma crônica à multitarefa digital. Estudos de neuroimagem mostraram menor ativação dessa área em usuários intensivos de redes sociais, comprometendo habilidades como planejamento, organização, autorregulação emocional e controle de impulsos [Horvath et al., 2020].
Atrofia Funcional do Hipocampo e Memória Prejudicada: O hipocampo, estrutura crítica para a consolidação da memória, também sofre os efeitos do consumo de informações rasas. Um estudo longitudinal publicado na revista NeuroImage (2019) associou o uso elevado de smartphones a redução da integridade estrutural do hipocampo, afetando negativamente a memória episódica e o aprendizado verbal [Horvath et al., 2020].
Dados Alarmantes Sobre o Uso de Tecnologia
O brasileiro passa, em média, 9h32 por dia conectado à internet, o que equivale a quase metade de um dia acordado [Datareportal, 2024].
A média de atenção humana caiu de 12 segundos em 2000 para 8,25 segundos em 2024, número inferior ao de um peixe dourado [Microsoft, 2024].
Um estudo da Universidade de Stanford revelou que 70% dos jovens entre 18 e 25 anos relataram dificuldade de concentração em tarefas acadêmicas após longas sessões em redes sociais [Rosen et al., 2020].
O tempo gasto em vídeos curtos, como os do TikTok, cresceu em mais de 500% nos últimos 3 anos, favorecendo estímulos fragmentados e recompensas imediatas [Statista, 2023].

Como se Proteger do Brain Rot?
As estratégias de prevenção e reversão do Brain Rot são fundamentadas na neurociência comportamental e visam restaurar o equilíbrio dos sistemas de atenção, memória e autocontrole:
Estabeleça Limites e Rotinas Digitais: Use alarmes ou aplicativos de controle para limitar o uso de redes sociais. Criar janelas específicas para consumo digital reduz a sobrecarga mental.
Detox Digital Consciente: Reserve blocos do dia para "silêncio cognitivo", sem acesso a telas. Esse tempo permite a consolidação da memória e promove a criatividade, como demonstrado por estudos sobre default mode network.
Fortaleça o Cérebro com Atividades Offline: Praticar leitura profunda, aprender um novo idioma, tocar um instrumento ou resolver desafios lógicos ativa circuitos cerebrais diferentes dos usados nas redes sociais.
Exercício Físico Regular: A atividade física aumenta os níveis de BDNF (fator neurotrófico derivado do cérebro), que protege os neurônios e melhora a cognição — especialmente a memória e o humor [Erickson et al., 2011].
Sono de Qualidade e Ritmo Circadiano: O sono REM é essencial para a consolidação da memória e o funcionamento do hipocampo. Evite telas 1–2 horas antes de dormir, pois a luz azul inibe a melatonina [Walker, 2017].
CONCLUSÃO
O fenômeno do Brain Rot representa um sinal de alerta em um mundo hiperconectado. A ciência nos mostra que o cérebro, embora adaptável, sofre com estímulos constantes e superficiais. Proteger a saúde mental exige intencionalidade, limites e escolhas conscientes. Ao reequilibrar nosso uso da tecnologia com práticas restauradoras, damos ao cérebro a chance de recuperar sua capacidade plena de foco, memória e criatividade.

REFERÊNCIAS
ERICKSON, K. I. et al. Exercise training increases size of hippocampus and improves memory. Proceedings of the National Academy of Sciences, [s. l.], v. 108, n. 7, p. 3017–3022, 2011. Disponível em: https://doi.org/10.1073/pnas.1015950108. Acesso em: 5 jan. 2026.
MONTAG, C. et al. Smartphone usage in the 21st century: Who is active on WhatsApp? Journal of Behavioral Addictions, [s. l.], v. 8, n. 3, p. 438–449, 2019. Disponível em: https://akjournals.com/view/journals/2006/8/3/article-p438.xml. Acesso em: 5 jan. 2026.
MONTAG, C.; BECKER, B. Neuroimaging the effects of smartphone (over-)use on brain function and structure – a review on the current state of MRI-based findings and a roadmap for future research. Psychoradiology, [s. l.], v. 3, 1 fev. 2023. Disponível em: https://academic.oup.com/psyrad/article/3/kkad001/7022348. Acesso em: 5 jan. 2026.
ROSEN, L. D. et al. Media and Technology Use Predicts Ill-Being Among Children, Preteens and Teenagers Independent of the Negative Health Impacts of Exercise and Eating Habits. Computers in Human Behavior, [s. l.], v. 35, p. 364–375, 2020. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.chb.2014.01.036. Acesso em: 5 jan. 2026.
SMALL, G. et al. Brain health consequences of digital technology use. Journal of Alzheimer’s Disease, [s. l.], v. 77, n. 1, p. 1-10, 2020. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC7366948/. Acesso em: 5 jan. 2026.




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