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Vitamina D: o erro silencioso que pode impedir seu corpo de aproveitá-la

  • Foto do escritor: Ronaldo Gorga
    Ronaldo Gorga
  • há 1 dia
  • 5 min de leitura

A vitamina D3, ou colecalciferol, pode ser produzida na pele a partir do 7-desidrocolesterol após exposição à radiação ultravioleta B. Também pode ser obtida em menor quantidade pela alimentação ou por suplementos. Depois disso, ela ainda não está em sua forma hormonal final. Primeiro, passa por uma hidroxilação no fígado, formando a 25-hidroxivitamina D, ou 25(OH)D, que é o principal marcador usado em exames laboratoriais para avaliar o status de vitamina D. Em seguida, pode passar por uma nova hidroxilação nos rins e em outros tecidos, formando a 1,25-di-hidroxivitamina D, ou 1,25(OH)₂D, considerada a forma biologicamente ativa.


Essas etapas dependem de enzimas específicas, incluindo hidroxilases ligadas ao sistema do citocromo P450. O magnésio participa indiretamente desse processo porque atua como cofator enzimático e está relacionado à produção e ao uso de ATP, molécula essencial para inúmeras reações celulares. Assim, quando há inadequação de magnésio, o metabolismo da vitamina D pode não ocorrer de maneira ideal. Isso não significa que o magnésio “substitui” a vitamina D, mas sim que ele pode influenciar a forma como o organismo ativa, utiliza e regula essa vitamina.


Essa hipótese tem respaldo em estudos clínicos e bioquímicos. Em um ensaio clínico randomizado, Dai et al. avaliaram a influência da suplementação de magnésio sobre o metabolismo da vitamina D. Os autores observaram que o magnésio modificou metabólitos da vitamina D de modo dependente dos níveis basais de 25(OH)D. Isso sugere que o magnésio pode atuar como um modulador metabólico, e não simplesmente como um fator que aumenta indiscriminadamente os níveis de vitamina D. Em outras palavras, o papel do magnésio parece estar mais ligado à regulação do eixo da vitamina D do que a um efeito linear e previsível em todas as pessoas.


Esse ponto é importante porque ajuda a explicar por que indivíduos diferentes podem responder de formas distintas à mesma dose de vitamina D. A resposta biológica depende de múltiplos fatores, como exposição solar, alimentação, idade, composição corporal, pigmentação da pele, função hepática, função renal, inflamação, genética, uso de medicamentos, presença de doenças crônicas e disponibilidade de cofatores nutricionais. Portanto, olhar apenas para a dose ingerida pode ser uma simplificação excessiva.


Mesmo em países com alta incidência solar, como o Brasil, níveis inadequados de vitamina D são relativamente comuns. Um estudo brasileiro com adultos saudáveis encontrou prevalência padronizada de deficiência de vitamina D de 15,3% e insuficiência de 50,9%, com variações entre diferentes cidades. Isso mostra que morar em um país tropical não garante, por si só, níveis adequados. Rotina em ambientes fechados, baixa exposição ao sol, uso frequente de protetor solar, roupas que cobrem grande parte da pele, obesidade, estação do ano e latitude podem interferir na síntese cutânea.


Em crianças e adolescentes brasileiros, estudos recentes também apontam prevalência relevante de deficiência de vitamina D, com maior vulnerabilidade em alguns subgrupos, como adolescentes do sexo feminino. Esse dado reforça que o problema não está restrito a idosos ou pessoas com doenças específicas. Ainda assim, é importante lembrar que sintomas como fadiga, dores musculares, baixa disposição e alterações de humor são inespecíficos. Eles podem estar relacionados à vitamina D, mas também podem ter muitas outras causas, como anemia, alterações tireoidianas, privação de sono, depressão, baixa ingestão energética, deficiência de outros micronutrientes ou doenças inflamatórias.


Por isso, a suplementação de vitamina D deve ser tratada com cautela. A diretriz de 2024 da Endocrine Society atualizou recomendações sobre o uso de vitamina D para prevenção de doenças. Para adultos saudáveis com menos de 75 anos, a entidade não recomenda doses acima da ingestão diária recomendada apenas com finalidade preventiva, nem rastreamento laboratorial universal de 25(OH)D em pessoas sem indicação clínica. A diretriz considera situações específicas em que a ingestão empírica pode ser maior que a recomendação padrão, como em crianças, gestantes, adultos acima de 75 anos e pessoas com pré-diabetes de alto risco, mas sempre dentro de um contexto clínico.



Isso não reduz a importância da vitamina D. Pelo contrário: reforça que ela deve ser compreendida dentro de um sistema fisiológico mais amplo. A ideia de que “mais vitamina D é sempre melhor” não é sustentada por uma abordagem médica equilibrada. Assim como a deficiência pode ser prejudicial, o uso excessivo e sem acompanhamento também pode trazer riscos, especialmente quando há doses elevadas por longos períodos.


O magnésio, por sua vez, está presente em alimentos como sementes, castanhas, leguminosas, folhas verdes, cacau, grãos integrais e alguns peixes. A ingestão adequada depende da idade, sexo e fase da vida. Entretanto, assim como ocorre com a vitamina D, isso não significa que toda pessoa precise suplementar magnésio. Em muitos casos, melhorar a qualidade da alimentação já pode contribuir para uma ingestão mais adequada. Além disso, suplementos de magnésio podem causar efeitos gastrointestinais e exigem cuidado especial em pessoas com doença renal.


A principal mensagem é que a vitamina D precisa de um “terreno metabólico” adequado para funcionar bem. Esse terreno inclui magnésio, mas também envolve estado nutricional geral, saúde hepática e renal, equilíbrio hormonal, exposição solar segura, sono, atividade física e presença ou ausência de doenças crônicas. Focar apenas no número da vitamina D no exame ou apenas na dose do suplemento pode deixar de lado elementos essenciais da fisiologia.


Do ponto de vista técnico, a relação entre magnésio e vitamina D pode ser entendida como uma interação entre cofatores, enzimas e sinalização hormonal. A vitamina D precisa ser convertida em 25(OH)D e depois em 1,25(OH)₂D. Essas conversões dependem de enzimas, e enzimas dependem de condições celulares adequadas. O magnésio participa da estabilidade do ATP, da função neuromuscular, da síntese proteica e da atividade de diversos sistemas enzimáticos. Assim, uma ingestão insuficiente de magnésio pode comprometer processos que sustentam a utilização eficiente da vitamina D.


Portanto, antes de pensar apenas em aumentar a dose de vitamina D, é mais prudente avaliar o conjunto: alimentação, exposição solar, exames quando indicados, sintomas, idade, histórico médico, medicamentos em uso e possíveis fatores que interferem na absorção ou ativação. A relação entre vitamina D e magnésio mostra que a nutrição não funciona como uma soma isolada de nutrientes, mas como uma rede integrada.


Em síntese, a vitamina D é fundamental, mas não age sozinha. O magnésio pode ser uma peça importante para sua ativação e regulação. A evidência científica sugere que essa interação é real, embora deva ser interpretada com equilíbrio. A melhor abordagem não é a suple

mentação automática, mas a avaliação individualizada e baseada em evidências. Saúde metabólica depende de contexto, e não apenas de um único nutriente.



Referências científicas


DAI, Q. et al. Magnesium status and supplementation influence vitamin D status and metabolism: results from a randomized trial. The American Journal of Clinical Nutrition, v. 108, n. 6, p. 1249-1258, 2018. DOI: 10.1093/ajcn/nqy274.


DEMAY, M. B. et al. Vitamin D for the Prevention of Disease: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, v. 109, n. 8, p. 1907-1947, 2024. DOI: 10.1210/clinem/dgae290.


BORBA, V. Z. C. et al. A Study of Vitamin D Status Among Healthy Adults in Brazil. Archives of Endocrinology and Metabolism, 2022. Disponível em: PMC. Acesso em: 10 jun. 2026.


RADONSKY, V. et al. Alert for the high prevalence of vitamin D deficiency in Brazilian children and adolescents. Jornal de Pediatria, 2024. Disponível em: SciELO/PMC. Acesso em: 10 jun. 2026.


FATIMA, G. et al. Magnesium Matters: A Comprehensive Review of Its Vital Role in Health and Disease. Nutrients/PMC, 2024. Disponível em: PMC. Acesso em: 10 jun. 2026.


SHAH, V. N. et al. A systematic review supporting the Endocrine Society Clinical Practice Guidelines on Vitamin D. The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, 2024. Disponível em: JCEM. Acesso em: 10 jun. 2026.


UWITONZE, A. M.; RAZZAQUE, M. S. Role of Magnesium in Vitamin D Activation and Function. The Journal of the American Osteopathic Association, v. 118, n. 3, p. 181-189, 2018. DOI: 10.7556/jaoa.2018.037.

 
 
 

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